Há 6 anos minha esposa Débora e eu mudamos para o sul do Ceará. Nosso sonho de sermos missionários começava a tomar forma. Eu, catarinense que já tinha passado por dois estados do Nordeste, acreditava que o Nordeste era tudo igual. Débora, como pernambucana, sabia que o Ceará não tinha a mesma cultura que Pernambuco. Logo descobri que Pernambuco é diferente do Ceará e que a cultura nordestina é regada de muitos sotaques diferentes, assim como gostos culinários e ênfases religiosas diversificadas.

Mas, então, como posso levar a mensagem de Jesus quando existem barreiras culturais? Atos 2 pode nos dar respostas que ajudam a entender os desafios do campo:

Ouvindo-se este som, ajuntou-se uma multidão que ficou perplexa, pois cada um os ouvia falar em sua própria língua. Atônitos e maravilhados, eles perguntavam: “Acaso não são galileus todos estes homens que estão falando? Então, como os ouvimos, cada um de nós, em nossa própria língua materna? (Atos 2.6-8, NVI).

Os apóstolos e discípulos de Jesus estavam vivendo um momento crucial em suas vidas, uma experiencia que dividiria o antes e depois na vida de muitos deles. Esta impactou também a igreja que estava nascendo e consequentemente o povo que estava ao redor. Os seguidores de Jesus tiveram a oportunidade de provar de dons espirituais que antes não tinham vivido, como o de falar em línguas. O momento em questão nos aponta a uma ação direta do Espírito Santo sobre a vida dos discípulos e apóstolos, e que resultaria na conversão de muitos outros que presenciaram essa experiência.

Isso me deixa muito claro duas situações aqui vividas e que mudam a perspectiva de vida missionária de um cristão:

Primeiro: Dependemos da ação do Espírito Santo

A ação do Espírito Santo é crucial dentro da missão. Dependemos da ação do Espírito Santo para que sejamos capacitados e usados por aquele que nos chamou.

“De repente veio do céu um som, como de um vento muito forte, …” (Atos 2.2a) “Ouvindo este som…” (Atos 2.6a)

As pessoas foram impactadas e expostas ao evangelho naquele momento. Percebam, o Espírito Santo não estava agindo apenas na vida dos discípulos e apóstolos, mas naquele local havia pessoas de tantas culturas e nações presenciando que ficaram maravilhadas com o que estava acontecendo.

Nossa vida cristã não pode ser algo independente. Precisamos levar o evangelho a pessoas de dentro e fora da nossa cultura. Precisamos tornar as boas novas de Cristo conhecidas em nosso ambiente de trabalho, faculdade e lugares que frequentamos. Para isso, precisamos da ação do Espírito Santo. Podemos até ser movidos de uma grande boa vontade, mas quem evidencia o evangelho, quem impacta os corações é Ele, não nós. Nós somos uma ferramenta nas mãos do Deus que nos convocou à missão.

Segundo: Precisamos romper a barreira da cultura

“…pois cada um os ouvia falar em sua própria língua”. Atos 2.6

Trata-se de permitir que o evangelho seja comum (inteligível). Quando chegamos na cidade do Crato, no sul do Ceará, nos deparamos com um povo que fala rápido. Por vezes, precisávamos pedir que falassem mais devagar, para que pudéssemos acompanhar. Interessante que eles estavam falando a mesma língua que nós, o português, mas havia uma construção e frases diferenciadas, com termos usados que para nós eram desconhecidos. Até tentávamos aplicar novas palavras em nosso vocabulário, mas por vezes sem sucesso.

André Sousa, missiólogo e antropólogo, com experiência entre a etnia indígena WaiWai. Escreveu certa vez: “Falar de comunicação cultural ou transcultural não significa somente a compreensão de uma “gramática linguística”, mas também de uma “gramática cultural”. Dentro do desafio da língua existe um desafio cultural. É necessário que ambas sejam compreendidas para que o evangelho faça sentido.

Percebemos que não era necessário apenas falar como eles, mas viver como eles viviam. O Espírito Santo foi agindo nos momentos em que jogávamos futebol, almoçávamos, riamos e chorávamos com eles.

As expressões começaram a vir de forma automática. Nós tivemos o privilégio de ver um povo sendo impactado por intermédio do Espírito Santo quando decidimos estar dentro da vida dos cearenses.

O evangelho precisa ser anunciado de forma clara dentro do contexto cultural. Amamos ouvir das pessoas quando voltamos para nossa cidade que dizem que estamos falando igual aos nordestinos. Para nós, é um sinal de que o Espírito Santo está agindo, como fez em Atos 2.

Romilto de Brito Cardoso

Por Missão Zero

quarta-feira, 09 dezembro 2020
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