Quais são os maiores ídolos que ameaçam a igreja em nossos dias?

Michael Goheen: uma das coisas que nós temos que perceber é que os ídolos não são coisas individuais que ficam uma ao lado da outra. A idolatria vem em uma embalagem complexa, e a resposta para essa pergunta é a de que existem cinco ou seis ídolos e explicar como eles se desenvolveram em suas histórias particulares. É impossível definir isso em um pequeno texto.

Eu diria que a história que se desenvolveu nos últimos dois séculos na Europa e na América do Norte está agora se espalhando pelo mundo devido à globalização. Nós precisamos entender essa história, uma história em que nós temos confiança suprema na pessoa como indivíduo autônomo; nós temos confiança na razão humana, especialmente quando disciplinada por um método científico. Isso é o que nos leva à verdade, e quando entendemos essa verdade podemos aplicá-la tecnologicamente, aí então podemos controlar nosso mundo; podemos aplicá-la na sociedade e construir uma sociedade mais racional. Esse é o tipo de visão que por duzentos anos vem formando a América do Norte e a Europa e que agora se espalha pelo mundo.

O que acontece é que essa história tem se tornado cada vez mais uma história econômica. É uma história da maneira que a ciência e a tecnologia permitem a nós colocar certo sistema econômico em vigor, e sermos capazes de desenvolver uma economia crescente. Nossas economias cresceram, especialmente no século XIX, tão rápido, que tivemos que realmente adotar uma sociedade de consumo, para sermos capazes de vender todos os bens que estávamos produzindo com nossa industrialização. Eu diria que na parte final do século XX e agora no século XXI, o consumismo é o ídolo maior.

Quando eu digo consumismo, eu não quero dizer apenas comprar coisas e eu não quero dizer apenas consumir experiências, apesar de que essa seria a forma que entenderíamos isso. Certamente o consumismo é comprar coisas, e certamente é comprar coisas demais, e certamente é consumir experiências. Entretanto, é mais do que isso, é a maneira como a nossa cultura foi construída, organizada em volta do consumo, de tal forma que os nossos dias de vida são executados em consumir experiências e bens e conseguir dinheiro o suficiente para ser capaz disso. Eu diria que a visão de mundo do consumo está crescentemente engolindo todas as partes da vida humana. Isso é certamente o caso da América do Norte e da Europa, mas está se espalhando pelo mundo através da religião missionária da globalização.

Estreitamente conectado com isso – pois é grande parte da cultura de consumo – está a tecnologia. É um maravilhoso presente de Deus que já nos deu muito, e seria tolo tentar denunciar a tecnologia, por causa daquilo que faz por nós (você está lendo esse texto devido à tecnologia). O problema é que ela está destruindo nossas vidas, pois nós a vemos como algo que pode fazer muito mais do que ela foi criada a fazer, e estamos nos tornando viciados nisso e nos tornando cativos dos nossos celulares, destruindo relacionamentos.

Alguns dias atrás eu vi um casal sentado junto num restaurante. Os dois estavam nos seus celulares por uma meia hora, e nem por uma vez chegaram a conversar um com o outro. Nossa tecnologia está nos fazendo estúpidos, destruindo e trivializando nossas vidas, e nós precisamos nos dar conta disso e perceber como podemos usá-la como um bom presente.

Quando falamos sobre ídolos, é muito importante fazer uma ressalva: um ídolo é sempre uma boa parte da criação. Tecnologia é uma boa parte da criação, consumir experiências e bens é o que Deus intencionou em Gênesis 1, que nós pudéssemos “deleitar e aproveitar a criação, e agradecê-lo por isso”. Acredito que é importante perceber que um ídolo é quando nós começamos a pegar algo bom da criação e orientamos nossas vidas em comunidade ao redor disso. Começamos a organizar todas as instituições e costumes das nossas vidas em torno desse ídolo, e então o ídolo, através de poder demoníaco e do que está em nossas cabeças, nos domina, nos agarra, nos escraviza e nos destrói.

A bondade da criação de Deus acaba sendo algo que pode ser destrutivo. Uma igreja missional seria uma Comunidade distinta que pode se deleitar nessas coisas, mas ao mesmo tempo começar a reconhecer onde acontece a idolatria e formar pessoas que são distintas, que usam a tecnologia sabiamente, que se deleitam no mundo de Deus e o agradecem por isso, mas sabem viver de forma simples, dizendo: eu tenho o suficiente.

*Texto adaptado de entrevista concedida por Goheen em 2017, durante participação no Encontro de Obreiros do Movimento Encontrão. Michael W. Goheen é diretor de educação teológica e pesquisador residente no Missional Training Center, em Phoenix, Arizona, nos Estados Unidos. Ele é autor de diversos livros, entre eles “A Igreja Missional na Bíblia” e “A Missão da Igreja Hoje”.

Por Missão Zero

sexta-feira, 15 novembro 2019

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