Não é novidade que o documentário da Netflix “O Dilema das Redes” deu o que falar. Sensacionalismo pra uns ou verdade absoluta pra outros, há um denominador comum que faz com que os dois polos se conectem: ainda não aprendemos com alguns velhos erros. E, por não aprendermos, pagamos um preço alto demais.

A tecnologia não é neutra.

A tecnologia não é neutra. Ela nem mesmo é um assunto novo. Do fogo à viagem a Marte, do chá da vó até a vacina pra Covid-19, sempre estivemos expostos a novas descobertas tecnológicas de baixa ou alta complexidade e nos beneficiamos disso. Hoje, com o mundo maravilhoso da internet, da conectividade ininterrupta e das mídias sociais não é diferente. Há incontáveis regalias e vantagens. Mas não pense que a tecnologia é neutra. Ela não é. Ter consciência disso é fundamental.

Não sejamos ingênuos! Há questões políticas, sociais e, principalmente, econômicas por trás de tudo. Há interesses muito maiores do que disponibilizar meios para que possamos conversar com aquele parente que mora no interior da Nova Zelândia. E esses interesses não são para o bem comum. De repente, você percebe o seu feed recheado de anúncios de bicicleta rosa feminina infantil, e isso logo depois de ter usado a ferramenta de busca pra fazer uma pesquisa rápida. Até mesmo os aplicativos mais “inocentes” costumam vir carregados de ênfases muito diferentes do entretenimento. Observe o efeito das redes sociais e mídias sociais na sociedade. Essas ferramentas foram desenvolvidas sob a premissa de nos deixar mais informados, unidos e felizes. No entanto, ao que parece, a sociedade está ficando, pouco a pouco, mais desinformada, mais intolerante, violenta, polarizada e triste.

Há um alvo a ser alcançado. E o ser humano parece ser o meio utilizado.

A tecnologia não é neutra. Se não é neutra, exige algo em troca. O preço? Exposição.

Em Mateus 5.13-16, depois de ter mencionado uma lista com pesadas exigências, Jesus, no meio daquela multidão, olha para cada um dos discípulos e diz: “Permitam-me dizer por que vocês estão aqui. Vocês estão aqui para ser o sal que traz o sabor divino à terra. Se perderem a capacidade de salgar, como as pessoas poderão sentir o tempero da vida dedicada a Deus? Vocês não terão mais utilidade e acabarão no lixo. Há uma outra maneira de dizer a mesma coisa: vocês estão aqui para ser luz, para trazer as cores de Deus ao mundo. Deus não é um segredo a ser guardado. Vamos torná-lo público, tão público quanto uma cidade num plano elevado. Se faço de vocês portadores da luz, não pensem que é para escondê-los debaixo de um balde virado. Quero posicioná-los onde todos possam vê-los. Agora que estão no alto do morro, onde todos conseguem enxergá-los, tratem de brilhar! Mantenham sua casa aberta. Que a generosidade seja a marca da vida de vocês. Mostrando-se acessíveis aos outros, vocês motivarão as pessoas a se aproximar de Deus, o generoso Pai do céu”.

Duas imagens – sal e luz – e duas responsabilidades fundamentais para mim e para você quando o assunto é tecnologia e internet.

1 – Temos uma responsabilidade pessoal

Jesus afirma que SOMOS o sal da terra, ponto final. Perceba que ele não está interessado em explicar de forma aprofundada. Somos sal. No entanto, Jesus continua com o que eu entendo ser a preocupação principal do seu raciocínio: o sal não deve perder o sabor. Se isso acontecer “não servirá para nada”.

A palavra-chave aqui é disciplina. Quem utiliza toda e qualquer forma de tecnologia, de baixa ou alta complexidade, incluindo aqui as redes e mídias sociais, precisa assumir a responsabilidade por uma eventual postura acrítica, antiética ou com motivações questionáveis – vaidade, egoísmo, autoafirmação. O famoso “penso, logo posto” que, infelizmente, tem reinado. Como sal, você precisa se contextualizar sem perder a essência do evangelho e sem perder a capacidade crítica que vem junto com ele – fundamentais para qualquer ação nossa, incluindo o uso da internet.

2 – Temos uma responsabilidade pública

O uso “individual e particular” das redes tem desdobramentos públicos e coletivos. Isso é fato. Ou seja, ainda que você se abstenha de usá-las, elas continuarão influenciando o comportamento, a economia e a política. Continuarão sendo usadas para moldar gostos, preferências e opiniões, seja para o bem ou para o mal.

Uma das frases do documentário que mencionei diz que “a mudança gradual, leve e imperceptível em seu comportamento e percepção é o produto” de maior interesse das empresas que estão na vanguarda tecnológica. Mudança de comportamento é o motivo do empenho da indústria online.

Então, para não ser impactado ou moldado por essa indústria que não tem o bem comum como principal motivação, e também para não correr o risco de ser moldado contra a sua própria vontade, você pode se afastar de tudo. Como alguns costumam fazer, você pode subir uma montanha e se isolar lá por quanto tempo achar necessário. Você pode abandonar o uso de qualquer mídia online. Fazendo isso, você diminui os riscos consideravelmente. Mas acredito que não é isso o que Jesus tem em mente. Não era o que ele tinha em mente quando disse que somos a luz do mundo e não é o que ele tem em mente quando nos chama para assumirmos o nosso papel na era da sociedade em rede. Exposição é o preço a se pagar, e este é um caminho sem volta. Acredito que não é à toa que Jesus menciona cada palavra do Sermão do Monte direcionada aos discípulos no meio daquela multidão. Eles já estavam expostos, e Jesus queria isso!

Hoje, estamos totalmente imersos em um mundo virtual e online. Isso é permanente. Dizer diferente seria o mesmo que imaginar vivermos sem a energia elétrica ou a roda. Impossível! Precisamos, de algum jeito, nos adaptar e aprender a lidar com a situação para, só então, sermos luz.

John Stott coloca desta forma: “Jesus chama seus discípulos para exercerem uma dupla influência na sociedade – uma influência negativa ao deter sua decadência e uma influência positiva trazendo a luz em meio a trevas. Pois uma coisa é impedir a propagação do mal; outra é promover a propagação da verdade, da beleza e da bondade”.

Somos chamados a ser uma comunidade contra cultural dentro desse mundo escuro, perverso e imerso em trevas. Precisamos, talvez mais do que nunca, ser criativamente envolventes, não isolados. Ser apenas diferente não é suficiente, a igreja deve estar em contato com a sociedade. E a sociedade está no mundo virtual. A sociedade está em rede. E é lá que a luz precisa brilhar.

Então, vamos construir algo juntos, como igreja, para que o mundo perceba que nos importamos e que estamos dispostos a mudar o quadro. Para que o mundo perceba que temos conteúdo relevante digno de ser ouvido, levado em consideração e compartilhado. Para que o mundo perceba que Deus se importa – se importou tanto que abandonou a si mesmo, “se compartilhou”, entrando no nosso mundo sujo e caído para o restaurar. E “para que vejam as nossas obras e glorifiquem ao nosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16).

Jonatan Neumann

Por Missão Zero

quarta-feira, 16 junho 2021
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